As condições climatéricas do passado domingo não foram impedimento para muitas centenas de pessoas se fazerem presentes em Alvelos (concelho de Barcelos) tomando parte na Procissão dos Passos. Instituída no ano transato, esta procissão promovida pela Confraria do Santíssimo Sacramento da Paróquia de São Lourenço de Alvelos, foi, uma vez mais, caraterizada pela participação e emoção.

Os atos religiosos tiveram início na capela de N.ª Sra. do Socorro, às 15h30, com o canto do grupo coral paroquial e ao som da Banda Musical de Oliveira. Seguiu-se uma saudação aos presentes pelo Pároco local e depois o Sermão do Pretório, a cargo do Pe. Nuno Ventura, que sublinhou: “Reunimo- nos nesta tarde para caminhar, para fazermos exercício. Sim, mas essencialmente um exercício espiritual. Um caminhar para recordar como Deus caminha com o seu povo e para aprender a caminhar segundo os passos de Jesus.”

O sacerdote continuou a sua reflexão, no Sermão do Pretório, afirmando que: “O nosso Deus, digamo-lo sem medo, é o Senhor dos Passos. Senhor dos Passos com que se aproxima de nós. Senhor dos Passos com que nos ensina a caminhar. Senhor, destes passos tingidos com o vermelho quente da sua Paixão.” E continuou vincando: “A Cruz não é a meta, não é o finalmente, não é o destino. A Cruz é o caminho, o entretanto. Sem dor, não há ganho. É pelo caminho da cruz que chegamos à glória.” “Como tomar a nossa cruz como o Senhor dos Passos? Com amor. O amor é a única coisa capaz de transformar uma situação maldita num espaço de redenção. Foi o amor e só o amor que tornou aquele calvário maldito no berço do nascimento da Igreja, no espaço do perdão e da salvação. O amor sabe dizer não a si para dizer sim ao outro. Porque quem ama sofre.”

O ponto alto da tarde aconteceu quando o cortejo, com a imagem do Senhor dos Passos, atingiu o adro da igreja paroquial, onde, defronte da estátua de N.ª Sra. das Dores, foi pronunciado o Sermão do Encontro e o Sermão do Calvário. No decurso deste comovente encontro de Jesus com sua Mãe, o pregador lembrou-nos que: “Onde há um filho que sofre há sempre uma mãe que se compadece” e que “A dor só se vê de perto.” Acrescentou ainda: “Um beijo e nenhuma palavra. Perante a dor não precisamos de palavras. Uma dor não se explica, condivide-se, cura-se. Às vezes, um beijo cura mais do que muitos medicamentos. Pena que nós tenhamos esquecido isto.” “Aquilo que mais dói não é a dor de corpo. Aquilo que mais dói, muitas vezes, é não ter ninguém em quem se apoiar. Maria é a Mãe da Igreja. E aquilo que Maria é, é o que deve ser a Igreja. Aquilo que N.ª Sra. das Dores é, é aquilo que as comunidades devem ser.” Finalmente a cada um deixou a questão: “Ante as dores, sou mais parecido com a Sra. das Dores que se aproxima da pessoa para a consolar ou sou mais parecido com os soldados que maltratam Jesus ou com os transeuntes que viram a cara para não se incomodarem?”

Os fiéis puderam assistir, igualmente, ao “canto de Verónica”, com quem, segundo o orador convidado, “Temos de aprender tanto. Mas temos de aprender muito. Ela é para nós um exemplo, porque ela não se deixou contagiar pela indiferença dos que passavam, nem pela brutalidade dos soldados. Ela tem a coragem da caridade. Da caridade que sabe que para ver bem tem de se aproximar. Da caridade que sabe que mais do que palavras são precisos atos e é por isso que ante aquele rosto desfigurado pela dor ela vê o Filho de Deus e por isso, ela abre o seu pano, abre o seu véu, e empresta o seu véu para enxugar o rosto do Filho de Deus. Ela ensina-nos a linguagem da ternura, da ternura que não se deixa vencer pela maldade, pela brutalidade, pela indiferença. Ela fala-nos da ternura que se aproxima e que limpa o rosto”

A finalizar a sua reflexão, o Pe. Nuno Ventura destacou as últimas palavras a dizer diante da Cruz: “Obrigado”, “Perdão” e “Ajuda-me”. Três palavras nas quais está toda a nossa vida: “Obrigado” – porque me amaste, porque não me abandonaste, porque na Tua cruz descubro a fonte da vida, porque olhando para Tua cruz ganho coragem para viver; “Perdão” – porque sou um pecador amado e salvo por Ti; “Ajuda-me” – não saio daqui o mesmo, saio transformado, que faça dos meus passos os teus passos.

Presidiu a este ato religioso o Arcipreste de Barcelos, Pe. Manuel Bezerra, acolitado pelos diáconos Sérgio Araújo e Pedro Fraga.

Estes Passos foram, assim, um convite aos presentes a um olhar penetrante para Cristo, lembrando tantos seres humanos que carregam no seu dia-a-dia pesadas “cruzes”. Ao olhar para Ele, lembremo-nos das multidões que se arrastam num sofrimento indescritível. Afinal de contas, ninguém pode dormir em paz enquanto tivermos irmãos nossos caídos, necessitados de caridade. Que a sociedade se humanize a partir de nós, na nossa cidadania assumida e comprometida.

O Pároco,

Pe. Paulo Sá.

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