João Cepa ex.Presidente da Câmara Municipal de Esposende faz um balanço do ano que findou no seu blog e que intitula “Do Fazer ao Aparecer”:

“Para além da formulação dos desejos próprios da época, a entrada num novo ano serve também para se fazer um balanço do ano que findou. 

É neste sentido que como munícipe e como ex-autarca também gostaria de fazer a minha análise, muito sucinta, aos 15 meses do atual mandato autárquico. 

O Município de Esposende, ao longo das últimas duas décadas e meia, foi-se afirmando em vários domínios e tornou-se referência, quer no plano regional, quer até mesmo no plano nacional. 

A prioridade da ação municipal centrou-se sempre no FAZER: fazer uma boa gestão dos recursos financeiros do Município; fazer crescer o concelho em infraestruturas e qualidade de vida; fazer obra; fazer bem e depressa; etc. 

Passados que estão 15 meses sobre o início do atual mandato autárquico é cada vez mais evidente que o FAZER deu lugar ao APARECER. 

Senão vejamos. 

Ainda não vimos um único investimento que tenha sido totalmente pensado, concebido, projetado e executado neste mandato, apesar de se tentar fazer crer o contrário. Todas as obras que foram executadas, e algumas delas inauguradas com pompa e circunstância, transitaram do mandato anterior, período durante o qual ou foram projetadas ou se iniciou a sua execução, incluindo as tão badaladas obras promovidas pela Polis Litoral Norte e pela Águas do Noroeste. Ou seja, independentemente de quem liderasse os destinos do Município, mesmo no plano partidário, estas obras seriam sempre uma realidade. 

Do ponto de vista dos eventos e dos projetos imateriais, os mais destacados e mais publicitados são também todos eles criações do passado: Encontro de Teatro, Encontro Luso-Galaico de BTT, Loja Social, Jogos Desportivos Escolares, Bolsas de Estudo, Coro dos Pequenos Cantores de Esposende, Março Com Sabores do Mar, Desfile de Carnaval Fantasia Ambiente, Feira de Velharias, Banco Local de Voluntariado, Festa dos Santos Populares dos Idosos, Corrida da Primavera, Fórum da Educação, Semana do Ambiente, Galaicofolia, Esposende Street Battle, Bibliotecas de Praia, Feira de Artesanato, Esposende EcoEmotions, Festival Sons de Verão, Festival da Juventude, Festa do Idoso, Campeonato Concelhio de Futebol Infantil, Sabores do Campo, Gala de Mérito Desportivo, etc. 

Do que de novo surgiu nestes 15 meses pouco mais há a destacar do que a edição de livros em número significativo; o organização de encontros, seminários e congressos diversos; a conclusão da revisão do PDM; e a oferta de manuais escolares a todos os alunos do 1º ciclo, independentemente da sua condição sócio-económica. 

Para a atual liderança do Município a importância do APARECER é por demais evidente. É por essa razão que se dá tanto valor, caindo por vezes no patamar do deslumbramento, às visitas dos membros do Governo, à organização de congressos e seminários com a participação de gente supostamente importante, às inaugurações, à presença em todo o tipo de cerimónias e iniciativas, etc. 

Como munícipe não me incomoda nada que se tirem muitas fotografias, que se façam centenas de notas de imprensa e que se corra de iniciativa para iniciativa. Aliás, é muito provável que eu próprio, a determinada altura do meu percurso autárquico, também o tenha feito, mesmo que em proporções mais reduzidas. 

O que me incomoda como munícipe é que o APARECER esteja a custar tanto dinheiro ao Município, que tem gasto dezenas de milhares de euros em publicidade nos jornais, em outdoors, em suplementos na imprensa, na edição de revistas e na publicação de entrevistas do líder. Sim, porque desenganem-se aqueles que pensam que as entrevistas aparecem nos jornais sem custos para o Município, directa ou indirectamente. Ainda recentemente a publicação de uma entrevista do líder municipal num jornal nacional custou quase tanto ao Município como o aumento que foi feito ao subsídio anual das corporações de bombeiros. 

No que diz respeito às propostas de entrevistas, a resposta típica do passado “é a pagar não estamos interessados”, deu agora lugar à resposta “claro que estamos interessados, mesmo sendo a pagar!”. São consequências do excesso de liquidez. 

Houve tempos em que também publicamos boletins informativos e revistas, mas deixamos de o fazer quando foi necessário cortar nas despesas e implementar medidas de forte contenção. Mesmo quando a situação financeira melhorou, na segunda metade do mandato anterior, optamos por não voltar a editar estas publicações por uma questão de respeito pelos munícipes, que continuavam a enfrentar grandes dificuldades. 

A exceção a essa opção foi a edição e distribuição em toda a região Norte, no início do Verão de 2013, de uma revista promocional do concelho, através de qual promovemos o Parque Natural do Litoral Norte, as praias, os rios Cávado e Neiva, o Centro de Educação Ambiental, os desportos náuticos, os percursos pedestres, o golfe, o hipismo, o Centro Municipal de Marcha e Corrida, o BTT, as Piscinas Foz do Cávado, a Casa da Juventude, o Castro e o Centro Interpretativo de S. Lourenço, a Casa Viana de Lima, a Rede de Museus do Mar, a Biblioteca Municipal, o Coro dos Pequenos Cantores, a gastronomia e vinhos, os Caminhos de Santiago, o artesanato, as festas e romarias, o Encontro Luso-Galaico, o Esposende EcoEmotions, a Galaicofolia, as Jornadas Gastronómicas de Apúlia, a Festa da Cerveja e do Marisco de Fão, as Festas do Município, o Festival Sons de Verão, a Feira Medieval, as unidades de alojamento e as unidades de restauração. Àqueles que guardaram um exemplar, fica o desafio para que encontrem nesta publicação o nome ou uma fotografia de um autarca, seja ele qual for. 

É legítimo que quem tem aspirações políticas faça tudo para se auto-promover. O que não é legítimo é que essa auto-promoção se faça à custa do dinheiro dos munícipes. 

Preocupa-me também quando os munícipes, as empresas, as instituições e os próprios trabalhadores municipais esperem e desesperem pela marcação de uma reunião, por uma resposta, por um despacho, por uma decisão ou por uma orientação, e tudo porque a prioridade é dedicar o tempo, que é sempre muito curto, ao que é mediático. 

Por fim, como ex-autarca, que teve de tomar medidas muitas vezes impopulares para que a Câmara Municipal chegasse a 2013 com uma situação financeira invejável e que muito trabalhou para que fosse possível haver tantas inaugurações em 2014, não posso deixar de me sentir revoltado e injustiçado quando se diz e se escreve que “ o que se verificou neste primeiro ano de mandato foi uma dinâmica completamente invulgar”. Não deixo de atribuir mérito a quem aparentemente teve e tem capacidade para dar continuidade ao que de bom se fez ou se iniciou no passado, mas é triste que se queira valorizar o presente menosprezando precisamente esse mesmo passado. 

Cada qual fará a leitura que entender desta minha análise. Não faltará, com certeza, quem a aproveite para alimentar as teorias da conspiração e as teorias das estratégias políticas. Até ver, não sou pretendente nem candidato a nada. A mim só há duas coisas neste momento que me movem e que me farão levantar a voz: a defesa do passado e a defesa da boa gestão do dinheiro dos munícipes. Não se andou a cortar subsídios, a desligar lâmpadas de iluminação pública, a controlar todos os gastos ao cêntimo, desde o papel de fotocópia até às horas extraordinárias dos trabalhadores, a dizer muitas vezes que “não”, etc, etc, etc, para agora se desbaratar dinheiro numa feira de vaidades. 

Também não é aceitável que sejam poucos os cantoneiros para varrerem as ruas, os jardineiros para tratarem dos jardins ou os calceteiros para repararem as estradas, e se tenha na Câmara Municipal um Serviço de Comunicação e Imagem com 5 funcionários a tempo inteiro (uma relações-públicas, uma jornalista, um fotógrafo e dois designers), aos quais se juntará em breve um cameraman, serviço que ficará com uma dimensão que dificilmente se encontrará em qualquer outra câmara municipal do país. E já nem falo sequer dos serviços de comunicação e imagem contratados a empresas externas. 

Espero sinceramente que no final de 2015 possam dizer e escrever que “o que se verificou neste segundo ano de mandato foi uma dinâmica completamente invulgar”. É que se não se verificar essa dinâmica, não será com certeza por falta de dinheiro, porque esse já se viu que sobra. Mas aí talvez a culpa seja de quem lá deixou mais de 2,5 milhões de euros.”

 

Fonte: Blog João Cepa

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