Em Manhente, a fé tem memória. E essa memória está gravada na pedra, no silêncio das ruas e no olhar de quem, ano após ano, acompanha os Passos do Senhor.
Tudo começa na Igreja Matriz de São Martinho de Manhente. Um templo antigo, de origem medieval, nascido da presença de um mosteiro beneditino, que atravessou séculos de história. As suas paredes românicas não guardam apenas arquitetura — guardam vidas. Guardam orações sussurradas, promessas feitas em silêncio, lágrimas de dor e de esperança. Foi ali que o povo de Manhente aprendeu a rezar, a celebrar e a resistir ao tempo.
A Igreja Matriz foi, durante gerações, o coração da freguesia. À sua volta cresceu a comunidade, formaram-se famílias e transmitiram-se valores.
Com o passar dos anos, a freguesia cresceu.
Novas necessidades surgiram e, com elas, nasceu a Igreja Nova de Manhente. Um espaço mais amplo e funcional, construído para acolher um povo que continuava a crescer, mas que nunca esqueceu as suas raízes. A Igreja Nova não substituiu a Matriz — passou a caminhar com ela. Duas igrejas, duas épocas, uma mesma fé.
É neste cenário que, no 4.º domingo da Quaresma, Manhente vive um dos momentos mais profundos da sua vida comunitária: a Procissão dos Passos do Senhor.
Em 2026, os Passos realizam-se nos dias 14 e 15 de março, mobilizando toda a comunidade numa vivência intensa de fé e tradição.
As celebrações iniciam-se no sábado, dia 14 de março, às 20h30, com a Procissão do Silêncio. Nesta procissão sai apenas o andor do Senhor dos Passos, num ambiente de recolhimento e oração, desde a Capelinha do Senhor dos Passos até à Igreja Matriz de São Martinho de Manhente. A procissão termina com a Eucaristia vespertina, solenizada pelo Grupo Coral da Paróquia, convidando a comunidade a entrar
espiritualmente nos mistérios da Paixão de Cristo.
No domingo, dia 15 de março, pelas 14h00, dá entrada a Banda Musical de Oliveira, que, juntamente com a Fábrica da Igreja — organizadora da procissão —, se dirige à casa da Juíza dos Passos, mantendo uma tradição antiga da comunidade. O cortejo segue depois até ao Cemitério Paroquial, onde é feita uma sentida homenagem a todos os benfeitores e devotos do Senhor dos Passos.
Após este momento de memória e gratidão, a comunidade dirige-se à Igreja Matriz, onde tem início a Procissão dos Passos do Senhor.
A procissão é marcada por três sermões, presididos pelo Reverendo Padre Doutor Manuel António Barbosa Moreira, arcipreste de Paredes de Coura, pároco de quatro paróquias e reconhecido pregador dos Passos.
Foram também convidados a participar o Padre Manuel Alberto Bezerra Alves, arcipreste de Barcelos e pároco de Vila Cova, Perelhal e Mariz, e o Padre João Batista Conde, pároco de Martim, Pousa, Ucha e Lama.
A celebração inicia-se com o Sermão do Pretório, acompanhado pela encenação da Última Ceia. Ao longo da procissão, cerca de 180 figurados, envolvendo crianças da catequese e membros da comunidade, dão vida aos diferentes momentos da Paixão de Cristo.
Participam também os Escuteiros do Agrupamento 785, bem como todas as pessoas que, com dedicação, transportam estandartes, bandeiras, lanternas, andores e o pálio, tornando possível a dignidade e a beleza desta manifestação de fé.
A procissão sai da Igreja Matriz em direção à Igreja Nova. Durante o percurso são representadas as quedas de Jesus no caminho para o Calvário.
Junto à Capelinha do Senhor dos Passos realiza-se o Sermão do Encontro, momento profundamente emotivo marcado pelo cântico da Verónica.
A procissão segue então até à Igreja Nova, onde tem lugar o terceiro e último sermão, com a representação da crucificação, morte e ressurreição de Cristo, encerrando a celebração num profundo momento de fé e esperança.
Esta celebração conta ainda com a presença e apoio das entidades civis, nomeadamente da Junta de Freguesia de Manhente e da Câmara Municipal de Barcelos, que se associam à comunidade nesta tradição secular.
Os Passos do Senhor em Manhente não são apenas uma procissão. São um legado.
Uma tradição passada de avós para pais, de pais para filhos. Muitos caminham porque sempre caminharam. Outros acompanham em silêncio, à porta de casa, com respeito e emoção. Todos sentem que fazem parte de algo maior.
Aqui, fé e história caminham juntas. Entre a Igreja Matriz e a Igreja Nova, entre o passado e o presente, os Passos do Senhor continuam a unir a comunidade, lembrando que há tradições que não se perdem — vivem enquanto houver um povo que as carregue no coração.
Padre Manuel Fonseca







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